Segurança viária e aprendizagem: PeNSE 2024
A segurança viária ainda é frequentemente compreendida como um tema técnico, associado a normas, regulamentações e comportamentos individuais, quase sempre centrado na figura do condutor. Nessa lógica, o trânsito costuma ser tratado como um assunto de adultos, distante da vida cotidiana de crianças e adolescentes. Essa forma de compreensão, embora recorrente, limita a análise de um fenômeno que é, antes de tudo, social.

Essa perspectiva ganha consistência quando deslocamos o olhar para a experiência de crianças e adolescentes. Já na década de 1960, Margaret Mead defendia que as necessidades das crianças deveriam orientar a forma como organizamos os espaços de convivência.
Circular com autonomia, explorar o ambiente e estabelecer vínculos são dimensões fundamentais do desenvolvimento. Quando essas experiências são limitadas por condições de risco, não se trata apenas de uma restrição de mobilidade, mas de uma alteração na forma de viver o espaço social.
Nas últimas décadas, essa mudança tornou-se mais evidente. As ruas, historicamente associadas à convivência, passaram a ser percebidas como espaços de risco.
Recorte da pesquisa PeNSE
Essa percepção não é abstrata, ela se materializa em experiências concretas. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) indica que
12,5% dos estudantes deixaram de ir à escola por não se sentirem seguros no trajeto entre casa e escola.
Esse dado não apenas confirma a presença do risco no deslocamento, mas evidencia seu impacto direto sobre o acesso à educação.
A mesma pesquisa mostra que a insegurança não se restringe ao percurso. 13,7% dos estudantes afirmaram ter faltado à escola por não se sentirem seguros no próprio ambiente escolar. Quando considerados em conjunto, esses dados revelam que a segurança, no trajeto e na escola, interfere diretamente na presença e, portanto, nas condições de aprendizagem.
Ao avançar na análise, a PeNSE permite compreender como essa exposição ao risco se articula com comportamentos no trânsito. Entre adolescentes de 13 a 17 anos,
33,8% não usaram ou usaram raramente o cinto de segurança, enquanto 34,2% relataram ter conduzido veículo motorizado, apesar de não possuírem idade adequada. Além disso, 27,2% estiveram em veículos cujo condutor havia ingerido bebida alcoólica.
Esses dados não indicam apenas práticas isoladas, mas um conjunto de experiências que compõem a realidade dos estudantes.
Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que 87,9% dos adolescentes que utilizaram motocicletas fizeram uso de capacete, evidenciando que comportamentos de proteção coexistem com práticas de risco. Essa coexistência não deve ser interpretada como contradição, mas como expressão de um ambiente em que diferentes referências normativas operam simultaneamente. Algumas práticas estão mais consolidadas, enquanto outras permanecem relativizadas.
Trânsito: fenômeno social
Essa dinâmica reforça a necessidade de compreender o trânsito como um fenômeno social. Os comportamentos observados não se produzem no vazio. Eles estão relacionados a práticas familiares, padrões culturais e condições territoriais que influenciam a forma como o risco é percebido e administrado.
Nesse sentido, a violência no trânsito não pode ser reduzida a decisões individuais, mas deve ser entendida como resultado de uma organização social que permite e, em certa medida, sustenta determinados níveis de exposição ao risco.
Essa leitura se torna ainda mais relevante quando se observam as desigualdades evidenciadas pela própria pesquisa. A percepção de insegurança é maior entre estudantes da rede pública, tanto no trajeto quanto no ambiente escolar. Esse dado indica que a segurança não está distribuída de forma homogênea e que diferentes grupos estão expostos a condições distintas de risco. Assim, a discussão sobre segurança viária também se insere no campo das desigualdades.
Aprendizagem vs vulnerabilidade
Ao conectar esses elementos, torna-se possível compreender que a segurança viária não é um tema periférico para a educação. Quando estudantes deixam de frequentar a escola por insegurança, o que está em jogo não é apenas a mobilidade, mas a própria continuidade do processo educativo. A ausência recorrente compromete o acompanhamento das atividades, fragiliza vínculos e amplia trajetórias de vulnerabilidade.
Diante desse cenário, a abordagem da segurança viária precisa ultrapassar a dimensão normativa. Não se trata apenas de ensinar regras de trânsito, mas de desenvolver uma compreensão mais ampla sobre risco, responsabilidade e convivência social. Isso implica reconhecer que a formação para a segurança envolve tanto a escola quanto outros espaços de socialização, especialmente a família e a comunidade.
Os dados da PeNSE 2024 evidenciam que a segurança viária está diretamente relacionada às condições em que os estudantes vivem, circulam e acessam a escola. Mais do que um conjunto de indicadores, eles revelam uma rede de fatores interdependentes que conectam mobilidade, segurança e educação.
Compreender essa relação é um passo fundamental para a construção de estratégias que não se limitem a responder aos efeitos, mas que atuem sobre as condições que produzem o risco.
MEAD, M.; BROWN, M. The wagon and the star: A study of American community initiative. Chicago: Rand McNally, 1966.




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