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O que realmente significa revisar um material educacional?

Foto do escritor: entrelaconsultoria
entrelaconsultoria
26 de ago.
3 min de leitura

“É só incluir a BNCC para esse material ficar atual”

Já recebi demandas que começaram mais ou menos assim.

À primeira vista, parece simples. Uma obra produzida há alguns anos precisa voltar a circular. Então, revisam-se as referências, atualizam-se os dados, substituem-se algumas imagens, conferem-se os links, incorporam-se as orientações curriculares mais recentes e pronto: material atualizado.

Mas não é bem assim.


Um material educacional não envelhece apenas porque uma informação mudou. Ele envelhece também na forma como organiza o conhecimento, nas perguntas que faz, nas experiências que propõe, na linguagem que utiliza e na maneira como compreende o estudante e o papel do professor.


Por isso, uma atualização consistente não começa pela pergunta “o que precisamos trocar?”. Mas,


Se este material fosse concebido hoje, ainda faríamos as mesmas escolhas? Essa pergunta muda completamente a revisão.

A BNCC não se atualiza com “localizar e substituir”

Quando uma obra foi produzida antes da BNCC ou precisa ser revista à luz dela é natural que competências, habilidades e referências curriculares façam parte da análise.

O problema aparece quando esse trabalho se resume a encontrar correspondências entre o conteúdo existente e os códigos da Base.

Um material pode mencionar habilidades da BNCC e, ainda assim, permanecer pedagogicamente distante daquilo que elas propõem.


Se afirmamos que determinada atividade favorece a argumentação, por exemplo, é preciso observar se o estudante realmente encontra espaço para construir argumentos, confrontar informações, justificar escolhas e elaborar uma posição própria.


Se dizemos trabalhar pensamento crítico, não basta acrescentar uma pergunta ao final de um texto.

Se a proposta anuncia protagonismo, autonomia ou resolução de problemas, essas ideias precisam estar presentes na experiência que o material proporciona e não apenas na apresentação pedagógica da obra.


Há uma diferença considerável entre associar uma atividade à BNCC e conceber uma experiência de aprendizagem coerente com ela.

Uma obra precisa ser lida como um sistema

Na revisão de um material paradidático ou educacional, é tentador trabalhar por partes: texto, atividades, imagens, referências, orientações ao professor, recursos digitais.

Só que o estudante não experimenta essas partes isoladamente.

Ele experimenta a obra.

Uma alteração na linguagem pode interferir na compreensão de uma atividade. Uma nova imagem pode modificar a leitura de determinado conceito. A retirada de um conteúdo pode deixar uma proposta sem sustentação. Uma atividade aparentemente interessante pode não dialogar com aquilo que foi desenvolvido anteriormente.


Por isso, revisar exige olhar para as partes sem perder de vista o conjunto.


  • A linguagem continua adequada ao público?

  • Os exemplos ainda dialogam com a realidade dos estudantes?

  • As atividades convidam a pensar ou apenas reproduzir informações?

  • As imagens cumprem uma função pedagógica ou são apenas decorativas?

  • As representações presentes na obra continuam pertinentes?

  • Dados e referências permanecem confiáveis e atuais?

  • Os recursos digitais ainda existem e acrescentam algo à experiência?

  • E as orientações destinadas ao professor realmente oferecem subsídios para ampliar o trabalho ou apenas descrevem o que já está evidente na página?


O custo de descobrir tarde o que deveria ter sido percebido cedo

Há também uma dimensão de gestão que não pode ser ignorada.

Quanto mais superficial é a análise inicial, maior é a possibilidade de descobrir problemas quando a produção já avançou.

Um texto segue para revisão. Depois, percebe-se que uma atividade precisa ser reconstruída. A alteração interfere na paginação. A diagramação volta. Uma imagem deixa de fazer sentido. O material retorna ao especialista. Uma nova rodada de validação começa.

O que parecia uma pequena atualização transforma-se em sucessivas correções. Esse retrabalho nem sempre acontece porque alguém executou mal uma tarefa. Muitas vezes, acontece porque a obra começou a ser alterada antes de ser suficientemente diagnosticada.

É por isso que uma boa atualização precisa começar antes da edição do primeiro parágrafo.

Primeiro se lê.

Depois se diagnostica.

Então se decide.

E somente depois se intervém.

Esse movimento permite definir o que pode permanecer, o que precisa ser atualizado, o que deve ser reconstruído e, em alguns casos, o que já não faz sentido preservar.


Nem tudo precisa mudar. Mas, questionar é preciso.

Atualizar não significa rejeitar tudo aquilo que foi produzido anteriormente. Um bom material pode atravessar anos preservando escolhas muito consistentes.

O critério não é a idade da obra.

É a pertinência de suas escolhas.

Há textos que precisam apenas de pequenas atualizações. Há atividades que continuam excelentes. Há estruturas que permanecem adequadas e podem ser preservadas.

Mas também existem situações em que insistir na manutenção de determinado conteúdo custa mais pedagogicamente e operacionalmente do que reconstruí-lo.

A experiência de quem revisa aparece nessa capacidade de distinguir uma coisa da outra.

É olhar novamente para um material que nasceu em determinado contexto e perguntar se suas escolhas continuam sustentáveis diante dos estudantes, dos professores, dos conhecimentos e das demandas educacionais de hoje.

Às vezes, a resposta será um ajuste.

Em outras, uma reconstrução.

E saber a diferença é justamente o que impede que uma atualização se transforme em uma sucessão de remendos.


Érika Tartari


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