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Onde nasce uma educação antirracista?

Foto do escritor: entrelaconsultoria
entrelaconsultoria
2 de jul.
3 min de leitura

Quando pensamos no combate ao racismo, é comum voltarmos o olhar para a escola. Afinal, é nesse espaço que crianças convivem com pessoas de diferentes histórias, culturas e realidades. Também é na escola que muitos episódios de discriminação acabam se tornando visíveis. Mas, se queremos transformar essa realidade, precisamos olhar para um lugar ainda mais importante: a família.


Antes de aprender a ler, escrever ou resolver problemas matemáticos, a criança aprende quem ela é. Aprende por meio das relações que vive, das palavras que escuta, dos exemplos que observa e da forma como é acolhida. É nesse ambiente que ela começa a construir sua identidade, sua autoestima e a compreender o valor das pessoas.

A Panorama da Primeira Infância (2025) realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal revelou um dado preocupante: uma em cada seis crianças brasileiras de até seis anos já sofreu racismo, segundo a percepção de seus responsáveis. Em mais da metade dos casos, as situações aconteceram em creches e pré-escolas. Os dados mostram que a discriminação racial pode estar presente desde a primeira infância e reforçam a necessidade de refletirmos sobre o papel de todos na formação das novas gerações.


Nenhuma criança nasce acreditando que a cor da sua pele a torna menos importante. Nenhuma criança nasce rejeitando seu cabelo ou desejando ser diferente para ser aceita. Essas ideias são aprendidas ao longo da convivência, nas mensagens transmitidas pelos adultos, nas referências que a cercam e, muitas vezes, nos pequenos comentários que parecem inofensivos.


Por isso, combater a discriminação racial vai muito além de ensinar que o racismo é errado. Significa educar para o respeito, para o reconhecimento da dignidade de cada pessoa e para a valorização das diferenças.

Essa aprendizagem começa cedo.


Ela está nos livros que oferecemos às crianças, nas histórias que contamos, nas conversas em família, nas amizades que incentivamos e na forma como reagimos diante de atitudes preconceituosas. Também está nas referências que apresentamos, mostrando que inteligência, beleza, competência e bondade não pertencem a um único grupo ou a uma única cultura.


Nesse processo, a família ocupa um lugar insubstituível.


Não porque possa impedir que uma criança enfrente situações de preconceito, mas porque pode ajudá-la a crescer sabendo quem é e reconhecendo o seu valor.

Quando uma criança cresce em um ambiente onde aprende que sua identidade merece respeito, ela desenvolve mais segurança para enfrentar desafios e compreender que nenhum ato de discriminação define quem ela é. Da mesma forma, crianças que aprendem a respeitar as diferenças desde cedo tendem a construir relações mais saudáveis e respeitosas ao longo da vida.


Isso não reduz a responsabilidade da escola. Pelo contrário. Família e escola precisam caminhar juntas. Enquanto a escola amplia conhecimentos, promove o convívio e cria oportunidades de aprendizagem, a família oferece as primeiras experiências de cuidado, respeito e convivência.


Educar para o respeito exige coerência entre o que dizemos e o que fazemos.


As crianças aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossos discursos. Aprendem quando percebem que tratamos todas as pessoas com respeito, quando rejeitamos brincadeiras preconceituosas, quando valorizamos diferentes culturas e quando mostramos, por meio do exemplo, que ninguém vale mais ou menos por causa da cor da pele.


Mais de vinte anos após a promulgação da Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas, o desafio permanece atual. A legislação representa um avanço importante, mas a construção de uma sociedade mais justa depende também das relações que estabelecemos todos os dias.


A educação tem um papel essencial nesse processo, e ela começa muito antes da sala de aula.

É em casa que a criança aprende as primeiras lições sobre respeito, convivência e dignidade. É ali que ela constrói a imagem que terá de si mesma e a maneira como olhará para o outro.


Érika Tartari


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