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A Copa passa. As aprendizagens permanecem.

Foto do escritor: entrelaconsultoria
entrelaconsultoria
23 de jun.
3 min de leitura

A cada quatro anos, algo muda na rotina das cidades. As bandeiras reaparecem nas ruas, os jogos dominam os noticiários e milhões de pessoas passam a compartilhar emoções em torno de um mesmo acontecimento. Independentemente de gostar ou não de futebol, é difícil ignorar a força que a Copa do Mundo exerce sobre a vida coletiva.


Nas escolas, esse movimento também se faz presente. Crianças chegam trocando figurinhas, comentando resultados, reproduzindo lances, discutindo seleções e demonstrando curiosidade sobre países que, muitas vezes, nunca haviam surgido em suas conversas.


Embora seja comum associar a Copa a atividades sobre educação física, geografia, matemática ou produção textual, talvez seu potencial educativo esteja em outro lugar. Mais do que um evento esportivo, a Copa é uma oportunidade para refletirmos sobre convivência, respeito, pertencimento e diversidade. Temas que fazem parte da formação humana e que acontecem diariamente na vida escolar.


Pertencer sem excluir

Torcer é, em alguma medida, sentir-se parte de algo maior. As cores, os símbolos, os cantos e as tradições criam uma identidade coletiva capaz de aproximar pessoas que nunca se viram antes.


Esse sentimento de pertencimento é importante. Todos nós precisamos encontrar lugares, grupos e causas com os quais nos identificamos. O desafio surge quando a construção da própria identidade depende da rejeição do outro.


Em tempos marcados por polarizações e discursos cada vez mais agressivos, a Copa oferece uma oportunidade interessante para refletir sobre uma questão essencial: é possível defender uma ideia, apoiar um time ou fazer parte de um grupo sem transformar quem pensa diferente em adversário?

A escola tem um papel importante nessa construção. Afinal, educar para a convivência também significa ensinar que a identidade não precisa ser construída pela exclusão.


O valor do coletivo em uma cultura de individualismo

Vivemos em uma sociedade que celebra resultados individuais. Gostamos de conhecer o artilheiro, o melhor jogador, o atleta mais decisivo. Mas raramente observamos tudo o que torna possível uma conquista.


Nenhuma seleção chega a uma Copa sozinha. Há equipes técnicas, profissionais de diferentes áreas, estratégias, planejamento e trabalho coletivo.


Talvez essa seja uma reflexão importante para a escola. Em um mundo que valoriza excessivamente o desempenho individual, vale lembrar que grande parte das conquistas humanas nasce da cooperação.


Projetos, pesquisas, descobertas e transformações raramente são frutos da ação isolada de uma única pessoa. Aprender a colaborar continua sendo uma das competências mais necessárias para a vida em sociedade.


Aprender a perder também faz parte do jogo.

A Copa mobiliza sonhos, expectativas e emoções intensas. Mas, ao final, apenas uma seleção levanta a taça. Para todas as outras, fica a experiência da derrota.

Em uma cultura que frequentemente associa o valor pessoal ao sucesso, talvez essa seja uma das conversas mais necessárias com crianças e adolescentes. Nem sempre o esforço produzirá o resultado esperado. Nem sempre os planos acontecerão da forma imaginada. Nem sempre venceremos.


E tudo bem. Lidar com frustração, erros e recomeços revela nossa capacidade de aprender e seguir em frente.


O esporte nos lembra que perder não significa fracassar; muitas vezes, significa continuar crescendo.

Um mundo maior do que o nosso

Durante a Copa, bandeiras, idiomas, músicas, histórias e tradições de diferentes países ganham espaço nas conversas cotidianas.


Mas conhecer outras culturas vai muito além de colecionar curiosidades ou identificar pratos típicos. Trata-se de compreender que existem diferentes maneiras de viver, pensar, organizar a sociedade e interpretar o mundo.

Essa percepção é especialmente importante em um contexto no qual, muitas vezes, as crianças convivem predominantemente com pessoas que compartilham referências semelhantes às suas.


A escola pode usar esse momento para expandir conhecimentos, estimular a curiosidade e fortalecer uma postura de abertura diante da diversidade humana.

Conhecer o outro é uma forma de compreender melhor a si mesmo.


Conflitos existem. O respeito também precisa existir.

Onde há pessoas, há divergências. Isso ocorre nas famílias, nas escolas, nos ambientes de trabalho e também no esporte.


Torcedores discordam. Opiniões se confrontam. Emoções se intensificam.

O problema não está no conflito em si, mas surge quando deixamos de reconhecer a humanidade de quem está do outro lado.


Talvez uma das aprendizagens mais urgentes do nosso tempo seja compreender que discordar não significa desrespeitar. É possível defender ideias, expressar opiniões e sustentar posicionamentos sem recorrer à agressão, à humilhação ou à intolerância.


A convivência democrática depende dessa capacidade. E ela se aprende.

Muito além dos noventa minutos


Quando o torneio terminar, os jogos serão arquivados, os campeões serão lembrados e a rotina seguirá seu curso, como acontece a cada edição.

Mas algumas perguntas podem permanecer.


Como convivemos com quem pensa diferente? Como lidamos com as derrotas? Como construímos relações de respeito em contextos marcados por divergências? Como reconhecemos a riqueza presente na diversidade humana? Como equilibramos conquistas individuais e responsabilidades coletivas?

Essas questões são mais importantes que qualquer placar. Porque a Copa passa.

Mas, as aprendizagens que ela inspira permanecem após o apito final.


Érika Tartari 


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