Bullying: reflexo social e expressão escolar
- entrelaconsultoria
- 22 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de abr.
Quase todo mundo guarda uma memória da escola que começa mais ou menos assim:
“era só uma brincadeira…”.
E, de fato, durante muito tempo, foi assim que aprendemos a nomear ou, melhor dizendo, a não nomear situações que hoje reconhecemos como violência. Eram os apelidos “inofensivos”, as piadas recorrentes, os comentários sobre o corpo, o cabelo, o jeito de ser, de falar.

Crescer implicava suportar. Doía, mas "fazia parte". Havia quase um consenso silencioso de que aquilo fortalecia, preparava para o mundo e ensinava a "se virar".
Mas, será mesmo?
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, quatro em cada dez adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos já sofreram bullying. As meninas aparecem como as principais vítimas, enquanto os meninos se reconhecem mais frequentemente como autores.
Quando os estudantes são questionados sobre os motivos, o que emerge não são comportamentos, mas características pessoais:
aparência do rosto ou do cabelo (30,2%)
corpo (24,7%)
cor ou raça (10,6%)
roupas e objetos (10,1%)
forma de falar (8,9%)
religião (7,1%)
gênero ou orientação sexual (6,4%)
deficiência (2,6%).
Dois dados, porém, são particularmente reveladores: 36,6% apontam “outros motivos” e 26,3% afirmam que não há motivo específico.
Isso revela que o bullying não depende de uma causa objetiva; ele se sustenta em um ambiente que permite que a diferença seja transformada em alvo.
A pesquisadora Telma Vinha ajuda a compreender que não estamos falando de qualquer conflito. O bullying possui características muito específicas: ocorre entre pares, envolve intenção de humilhar, é recorrente, escolhe alguém em condição de vulnerabilidade e acontece diante de uma plateia. Essa plateia que ri, silencia ou não sabe como agir, não é coadjuvante; ela é parte do fenômeno.
Se, no espaço físico da escola, essa dinâmica já é complexa, no ambiente digital ela assume outra dimensão.
Cyberbullying
O cyberbullying rompe a necessidade de repetição: uma única postagem pode ser suficiente para gerar danos profundos e duradouros. Um meme, um vídeo ou um comentário pode ser compartilhado milhares de vezes, ultrapassar contextos, alcançar públicos inesperados e permanecer circulando indefinidamente. Com o avanço das tecnologias e o uso de inteligência artificial, surge ainda um novo agravante: conteúdos manipulados, falas fabricadas, imagens falsas. O que não é real pode ser percebido como verdade, e os impactos continuam a ser devastadores.
Diante disso, o Brasil atualizou sua legislação em 2024, criminalizando tanto o bullying quanto o cyberbullying. Trata-se de um avanço importante no reconhecimento da gravidade do problema. No entanto, essa medida também levanta debates, especialmente no contexto escolar. Adolescentes não são tratados como criminosos no sentido tradicional, mas como sujeitos em desenvolvimento, submetidos a medidas socioeducativas, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Isso nos leva a uma reflexão: embora a responsabilização seja necessária, a resposta ao bullying, na escola, não pode ser apenas punitiva. Ela precisa ser, sobretudo, pedagógica.
Reduzir o bullying a uma questão individual (de quem agride ou de quem sofre) é simplificar um fenômeno que é, essencialmente, coletivo. Ele reflete a forma como nos relacionamos, os valores que sustentamos e os espaços (ou a ausência deles) para diálogo e escuta.
Ecossistema de violência
E talvez aqui esteja um dos aspectos mais preocupantes apontados pelas pesquisas: muitos adolescentes relatam não se sentirem ouvidos, nem na família, nem na escola. Em um contexto marcado pela exposição constante, pela circulação de discursos de ódio e por relações cada vez mais mediadas por telas, cresce o que alguns pesquisadores chamam de “ecossistema de violência”, um ambiente que ultrapassa os muros da escola e atravessa o cotidiano dos adolescentes e jovens.
Diante dessa realidade, protocolos e legislações são fundamentais, mas não suficientes; eles não transformam, por si só, a cultura.
Transformar exige tempo, intencionalidade e envolvimento real. Requer criar espaços para uma escuta qualificada, promover o diálogo, fortalecer vínculos e desenvolver práticas de mediação de conflitos que façam sentido no cotidiano escolar. Exige, sobretudo, reconstruir a ideia de pertencimento.
Escola como espaço de existência
A escola precisa ser mais do que um lugar de transmissão de conteúdo. Precisa ser um espaço onde se possa existir sem medo, onde a diferença não seja motivo de exclusão, mas ponto de partida para a convivência, e onde o erro não seja ridicularizado, mas compreendido como parte do processo de aprendizagem.
Talvez o enfrentamento do bullying comece quando deixamos de tratá-lo como algo natural ou inevitável e o reconhecemos como reflexo das relações que construímos todos os dias. Não se trata de apontar culpados, mas de ampliar a responsabilidade: família, escola e sociedade fazem parte desse cenário. Criar ambientes mais respeitosos, seguros e empáticos não é uma tarefa isolada, mas um compromisso coletivo.




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